ã Projeto Refletindo - Otavio Fattori e Luciano Fattori
Porto Alegre, setembro de 2006.
12. Reflexões de Dalai Lama

Responsabilidade
Não temos necessidade de abraçar uma religião ou de aderir a uma ideologia. O essencial é que cultivemos boas qualidades humanas. Assim, poderemos desenvolver nosso senso de responsabilidade universal, que diz respeito a cada aspecto da vida moderna.

Harmonia
Só em olhar os insetos, as formigas, as abelhas, todos esses animais inocentes, experimento com freqüência uma forma de respeito por eles. Por quê? Porque eles não têm nenhuma religião, nenhuma constituição, nenhuma polícia, nada. Mas vivem em harmonia na lei da existência, a lei da natureza.

Humildade
Considerar-se superior aos outros á tornar-se seu próprio inimigo e caminhar direto para a ruína. O mal, o medo e o sofrimento que reinam neste mundo têm uma mesma origem: o apego ao "Eu".

Aquele que adota uma atitude humilde vê suas qualidades se reforçarem. Aquele que é orgulhoso torna-se invejoso dos outros e se aborrece com eles. Segue-se daí uma grande tristeza em nossa sociedade.

Felicidade
A felicidade é um estado de espírito. Se dispões de conforto físico mas teu espírito ainda se acha presa de confusão e agitação, não se pode falar de felicidade. Felicidade significa tranqüilidade de espírito.

Atitude mental
Em nossa relação com os outros, nossa atitude mental é determinante. Mesmo para um não-crente, a verdadeira fonte da felicidade reside na atitude mental. Ainda que estejas bem de saúde, gozes de um certo conforto e tenhas numerosos amigos, a causa principal de uma vida feliz encontra-se dentro de ti.

Se, em nossa vida cotidiana, possuímos qualidades como a compaixão ou a capacidade de perdoar, então, quaisquer que sejam as circunstâncias, mesmo como alvo de hostilidade, o espírito ficará em paz, fechado às influências exteriores. Portanto, a compaixão é uma fonte de felicidade. Todavia, se, um dia, experimentares ressentimento ou ódio, não conseguirás ser feliz. Logo, a atitude mental é o fator determinante da felicidade e da tristeza.







Consciência
As escolas budistas declaram geralmente que não se pode determinar um começo para a consciência, pois então teríamos de aceitar a idéia de um primeiro instante de consciência sem causa e surgido de lugar nenhum. Isso contradiz um dos princípios fundamentais do budismo, que é a lei de causa e efeito. O budismo aceita a natureza de dependência da realidade, segundo a qual tudo sobrevém em conseqüência da interação de certas causas e condições. Deste modo, os budistas consideram que a mais ínfima parte da consciência deve ser produzida por causas e condições, quaisquer que sejam elas. A principal e a mais substancial dessas causas deve ser uma forma qualquer de experiência, já que a matéria não pode por si mesma produzir a consciência. Forçosamente, a consciência deve, portanto, vir de um exemplo anterior de consciência.

O potencial para atingir a perfeição, o potencial para alcançar a plena iluminação reside em cada um de nós. Na realidade, esse potencial não é mais que a natureza essencial do espírito, considerada a verdadeira natureza da luz e do conhecimento. Por intermédio de uma prática espiritual progressiva, podemos eliminar os obstáculos que nos impedem de aperfeiçoar essa semente dedicada à iluminação. E, à medida que superamos os obstáculos, a qualidade inerente à nossa consciência se manifesta cada vez mais, até atingir o mais alto nível de perfeição, que não é senão o espírito luminoso de Buda.

Esperança
Nossa vida cotidiana, sobretudo no futuro, a longo prazo, depende em grande parte da esperança. Não há nenhuma garantia quanto ao futuro exceto aquela que se baseia na esperança. Ter esperança significa esperar algo bom. Ninguém alimenta esperança em relação a acontecimentos ruins. Logo, a meta de nossa vida é a felicidade: queremos viver dias, semanas, anos mais felizes, ter uma família mais feliz, viver no seio de uma comunidade humana mais feliz. Sendo a atitude mental um fator maior, penso que deveríamos dar mais interesse ao nosso desenvolvimento interior.

Espírito
Todos os nossos excessos provêm de nosso espírito indisciplinado. E essa indisciplina nasce do egoísmo. Nós nos achamos presos entre a esperança e a inquietude, confrontados com o medo do fracasso. Em geral, apontamos os outros com o medo e os acusamos de todos os males. Mas a verdadeira raiz do problema, a fonte de todas as contrariedades, a origem de todos os imprevistos reside na atitude egocêntrica que persiste em nosso coração.

Se nosso estado de espírito é pobre e nossa capacidade limitada, como se pode satisfazer às expectativas dos outros? Ter vontade de ajudá-los não basta. Em primeiro lugar, devemos nos exercitar para perceber melhor suas aspirações e eliminar todos os defeitos que nos impedem de ver as coisas como elas são. Os obstáculos à onisciência são ilusões como o desejo, a cólera, o orgulho e a ignorância, mas também as marcas que elas deixam no espírito depois de terem sido alimentadas. Mas, uma vez que a verdadeira natureza do espírito é a clareza, a pureza e o conhecimento, é possível purificá-lo em profundidade e atingir desse modo essa clareza de consciência que chamamos de onisciência.








Nossas ações corporais e nossa palavra dependem do poder do espírito. Mesmo para uma pessoa que leva uma vida puramente mundana, as más ações podem ser transformadas pelo espírito. E mesmo se o espírito de tal pessoa se encontra numa profunda ignorância, um ínfimo traço de vontade pode transformar os atos negativos em boas ações.

O treinamento do espírito é imperativo e não deveria ser considerado algo dependente da religião. Tal técnica ou tal método para formar o espírito deveria constituir uma parte da vida cotidiana de cada pessoa. O espírito não tem cor nem forma, e é difícil de ser identificado. No entanto, seu poder é imenso. Às vezes, parece difícil apreendê-lo, modificá-lo e controlá-lo. Isso depende em grande parte do momento escolhido, de nossa vontade, de nossa determinação e de nossa prudência. Se dermos prova de determinação e de prudência - a prudência implicando o conhecimento -, o essencial será então treinar o espírito.

Da mesma forma que se diz que o espírito não tem começo, considera-se igualmente que ele não tenha fim, pois não há nada que possa destruir a existência fundamental de nossa aptidão para o conhecimento e para a experiência. Certos estados de espírito, como, por exemplo, as experiências sensoriais, dependem de nosso corpo físico, e eles podem atingir um fim quando o seu suporte físico deixa de existir -, em outras palavras, no momento da morte.

Compaixão
O mais alto grau de tranqüilidade interior provém do desenvolvimento do amor e da compaixão. Quanto mais nos preocupamos com a felicidade dos outros, mais aumenta e se afirma o nosso próprio sentido do bem-estar. Cultivar um sentimento caloroso pelos outros abre o espírito e faz cair as barreiras. É a fonte última do sucesso na vida.

Não te deixes nunca levar por este pensamento: "Se eu ajudar os outros, acumularei ações positivas. Eu serei uma pessoa virtuosa, o que me permitirá ser feliz no futuro." Não é esse o objetivo. Realiza ações positivas com compaixão, do mais profundo de teu coração, sem te deixares guiar pela menor noção de recompensa pessoal.

Se considerarmos o mundo em seu conjunto, penso que a compaixão é mais importante que a religião.

Religião
Cada um de nós, à nossa maneira, pode propagar a compaixão nos corações das pessoas. Em nossos dias, as civilizações ocidentais dão grande importância à prática de "encher" o cérebro humano com conhecimento, mas ninguém me parece preocupado em encher o coração humano de compaixão. É esse o verdadeiro papel da religião.

Toda religião, com uma filosofia própria, com tradições próprias, estabelece como objetivo mitigar os sofrimentos do espírito humano. Não tem importância alguma saber se uma determinada religião é superior a outra. O que conta é saber qual delas se acha mais bem adaptada às expectativas de cada pessoa.








Sabedoria
Existem três tipos de sabedoria, ou três etapas na compreensão de cada pessoa. A etapa inicial é a escuta e o aprendizado, quando tu lês ou aprendes algo. A segunda é atingida quando, depois do aprendizado, pensas constantemente no assunto, e devido a essa familiaridade tua compreensão torna-se mais clara. É então que começas a ter certas sensações ou experiências. Esta terceira etapa é chamada de "sabedoria adquirida meditativamente". A partir daí, não compreendes mais o assunto apenas do ponto de vista intelectual, tu o percebe por meio de uma experiência meditativa.

Vida
Reflitamos sobre o que realmente tem valor na vida, sobre o que dá sentido à nossa vida, e sirvamo-nos disso para definir nossas prioridades. A meta de nossa vida deve ser positiva. Não nascemos para criar problemas ou prejudicar os outros. Para que nossa vida tenha valor, devemos desenvolver as qualidades humanas fundamentais: bondade, gentileza, compaixão. Então nossa vida se encherá de sentido e se tornará mais pacífica, mais feliz.

Meditação
É mais difícil meditar do que fazer realmente algo pelos outros. Às vezes, considero que meditar sobre a compaixão significa escolher a opção passiva. Nossa meditação deveria constituir a base de toda a ação, para aproveitar a ocasião de fazer alguma coisa.

O objetivo da meditação sobre o sofrimento não é provocar mais inquietude, e sim erradicar suas causas. A prática da meditação sobre a verdadeira senda leva à interrupção dos sofrimentos e de suas causas.

Tu não podes mudar teu espírito sem meditação.

Escuta
É pela escuta que teu espírito alcançará a fé e o devotamento, que tu te tornarás capaz de conservar a alegria e de atingir o equilíbrio. É pela escuta que desenvolverás a sabedoria e expulsarás a ignorância. Assim, vale a pena implicar-se na escuta, mesmo que isso custe tua própria vida. A escuta é como uma tocha que rechaça a obscuridade da ignorância. E se fores capaz de enriquecer permanentemente teu mental pela escuta, ninguém poderá te roubar essa riqueza. É a riqueza suprema.







Não-violência
Se o homem fosse naturalmente agressivo, ele teria nascido com garras e dentes afiados - ora, nós temos unhas e dentes inofensivos. Em outras palavras, não estamos "equipados" para sermos agressivos. Até nossa boca é muito pequena. A natureza profunda dos seres humanos não pode ser senão a doçura.

É o inimigo quem realmente nos ensina a praticar as virtudes da compaixão e da tolerância.

Paciência
A pessoa que em qualquer circunstância se mostra paciente e tolerante goza de uma certa tranqüilidade. Tal pessoa não é apenas feliz e mais equilibrada emocionalmente, ela também parece menos doente. Tem uma vontade forte, um bom apetite, e pode dormir o sono dos justos.

Praticar a paciência é a maneira mais eficaz de preservar a paz de espírito.

Serenidade
Se experimentares uma dor, busque aquilo que poderias fazer para mitigá-la. Se o encontrares, não há motivo para preocupação; e se nada puderes fazer, tampouco haverá motivo para preocupação.
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